“Durante o tempo em que os homens vivem sem um poder comum capaz de os manter a todos em respeito, eles se encontram naquela condição que se chama guerra, uma guerra de todos contra todos.”
— Thomas Hobbes, Leviatã, Capítulo XIII
Quando Thomas Hobbes escreveu O Leviatã em 1651, a Inglaterra vivia guerra civil. Ele presenciou o caos: saques, assassinatos, desconfiança generalizada. E da observação desse horror, ele extraiu uma verdade brutal e incontornável:
Sem um Estado forte capaz de garantir segurança, a vida humana é “solitária, pobre, sórdida, brutal e curta”.
O Brasil de 2026 não é formalmente um estado de natureza. Tem Constituição, tem polícia, tem Judiciário. Mas em vastas regiões — favelas dominadas por facções, periferias controladas por milícias, fronteiras sem fiscalização — o Estado hobbesiano sumiu.
E quando o Estado some, o que resta é exatamente o que Hobbes temia: guerra de todos contra todos.
Os números não mentem.
Segundo o Atlas da Violência 2024 (IPEA / Fórum Brasileiro de Segurança Pública), baseado em dados de 2023:
Tabela 1: Homicídios no Brasil – Panorama 2023
Indicador | Número Absoluto | Taxa (por 100 mil hab.) | Contexto Global |
Total de homicídios | 45.747 | 21,9 | 4x a média mundial (5,8) |
Homicídios de jovens 15-29 anos | 23.190 | 51,6% do total | Principal causa de morte |
Feminicídios | 1.467 | — | 5º país mais violento para mulheres |
Estupros registrados | 74.930 | — | Subnotificação estimada em 70% |
Mortes violentas intencionais | 46.328 | 22,1 | Inclui latrocínios |
Fontes: Atlas da Violência 2024 (IPEA/FBSP); Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2024
Contextualizando:
Tabela 2: Taxa de Homicídios – Brasil vs. Países Selecionados
País | Taxa (2023) | Contexto |
Japão | 0,2 | Sociedade altamente coesa |
Singapura | 0,4 | Estado de direito rigoroso |
Alemanha | 0,8 | Referência europeia |
França | 1,3 | Problemas urbanos crescentes |
Argentina | 3,9 | Vizinho sul-americano |
Chile | 5,4 | Aumento recente |
Estados Unidos | 6,8 | Violência armada sistêmica |
🔴 BRASIL | 21,9 | Epidemia crônica há décadas |
México | 28,4 | Guerra contra cartéis |
Venezuela | 39,2 | Colapso institucional |
Fontes: Compilação de UNODC, IHME, Atlas da Violência, institutos nacionais
Análise:
Mas o mais importante: alguns países conseguiram reduzir drasticamente a violência em poucos anos. Logo, não é ‘destino’, é escolha política.
Fiódor Dostoiévski, em Crime e Castigo (1866), narra a história de Raskólnikov, um jovem pobre e inteligente que comete homicídio por desespero e delírio ideológico.
O livro não é sobre ‘bandido malvado’. É sobre como miséria, falta de perspectiva e ausência de Estado social criam as condições para o crime.
Transpondo para o Brasil de 2026:
Hobbes estava certo: onde o Estado falha, a violência prospera.
Estudos do IPEA, Fórum Brasileiro de Segurança Pública e Banco Mundial estimam que o custo total da violência no Brasil varia entre 5,9% e 11% do PIB.
Tomando a média conservadora de 8,5% do PIB:
Quadro 1: Cálculo do Custo Anual da Violência
Base de Cálculo | Valor |
PIB Brasil 2023 | R$ 10,9 trilhões |
Custo da violência (8,5%) | R$ 927 bilhões/ano |
Fonte: IPEA; Fórum Brasileiro de Segurança Pública
Para dimensionar:
Polícia, sistema prisional, justiça criminal, segurança privada
Trabalhadores mortos ou incapacitados, absenteísmo por medo, tempo perdido em desvios
Empresas que não abrem filiais, turismo sufocado, imóveis desvalorizados
Tratamento de vítimas, saúde mental (PTSD, ansiedade, depressão coletiva)
Processos criminais, defensorias, perícias
Conclusão: Violência não é só tragédia moral. É sangria econômica permanente.
Em 2021, o Global Peace Index revelou que o Brasil tem a maior taxa de percepção de medo da violência entre 163 países analisados: 83% dos brasileiros afirmam sentir medo no cotidiano.
Isso não é estatística abstrata. É:
“A violência pode destruir o poder, mas é incapaz de criá-lo.”
— Hannah Arendt, Sobre a Violência (1969)
O Brasil está vivendo a destruição do poder (a capacidade coletiva de agir) pela violência. E quando isso acontece, a sociedade regride a um estado quase primitivo de desconfiança e medo.
Em O Mito de Sísifo (1942), Albert Camus argumenta que o absurdo surge quando a realidade contradiz radicalmente nossas expectativas de sentido.
Há algo mais absurdo que aceitar 125 assassinatos por dia como “normalidade”?
Quando a sociedade brasileira vê notícia de chacina e pensa ‘de novo?’, quando pais orientam filhos a ‘não reagir a assalto’, quando empresários pagam propina para milícia — a normalização do absurdo está completa.
Thomas Hobbes argumentava que o Estado existe por um contrato social: indivíduos abrem mão de parte de sua liberdade em troca de segurança garantida pelo Estado.
Quando o Estado falha em garantir segurança, o contrato está quebrado. E o que acontece?
Resultado: fragmentação social, desintegração cívica, volta ao estado de natureza em regiões específicas.
Entender causas não é justificar crime. É identificar onde intervir para quebrar o ciclo.
Gini brasileiro: 0,52 (entre os piores do mundo). Quando milhões de jovens não têm escola de qualidade, emprego formal ou futuro, o crime organizado vira ‘porta aberta’.
Taxa de Elucidação de Crimes no Brasil
Tipo de Crime | Taxa de Elucidação | Comentário |
Homicídios | 36% | Em 64% dos casos, ninguém é punido |
Roubos e furtos | < 10% | Criminalidade impune em escala industrial |
Feminicídios | 28% | Maioria sem justiça |
Crimes de colarinho branco | < 5% | Praticamente impunidade total |
Fonte: CNJ, FBSP, estudos acadêmicos
Quando crime compensa (baixo risco de punição), a mensagem é: “pode fazer”.
Nos anos 1970-80, Nova York era sinônimo de violência urbana:
Crimes pequenos, quando tolerados, geram ambiente de impunidade que favorece crimes maiores. Nova York começou a reprimir pichação, venda de drogas em pequena escala, desordem pública.
Sistema que mapeia crimes em tempo real, identifica hotspots, direciona policiamento, cobra resultados.
Policial passou a conhecer moradores, ouvir denúncias, construir confiança, mediar conflitos.
Tabela 3: Evolução da Violência em Nova York (1990-2023)
Ano | Homicídios | Taxa (por 100 mil) | Redução % |
1990 | 2.245 | 30,9 | — |
2000 | 673 | 8,4 | -73% |
2010 | 536 | 6,4 | -76% |
2023 | 386 | 4,5 | -83% |
Fonte: NYPD Crime Statistics
Lição para o Brasil: Não é questão de “ser país rico”. É questão de método, persistência, inteligência policial + presença do Estado social.
Nos anos 1990, Medellín era a cidade mais violenta do mundo:
Filosofia: levar Estado (na forma de oportunidade e dignidade) para onde só havia abandono.
Tabela 4: Evolução da Violência em Medellín (1991-2023)
Ano | Taxa de Homicídios (por 100 mil) | Redução % |
1991 | 381 | — |
2000 | 184 | -52% |
2010 | 95 | -75% |
2023 | 18,3 | -95% |
Fonte: Prefeitura de Medellín / Observatório de Segurança
Lição: Violência extrema não é destino eterno. Com vontade política, método e investimento social integrado, dá para virar o jogo.
O plano de Mário Oliveira Filho se baseia em seis pilares práticos:
Objetivo: Aumentar drasticamente a taxa de elucidação de crimes.
Como:
Objetivo: Expurgar corruptos, valorizar honestos.
Objetivo: Eliminar duplicidade, aumentar eficiência.
Thomas Hobbes estava certo: sem segurança, não há civilização.
Mas Hobbes escreveu em 1651. Hoje, sabemos que segurança não é só repressão — é inteligência, integração, presença social do Estado.
Os casos de Nova York, Medellín, Bogotá provam que violência não é destino.
Quando Mário Oliveira Filho propõe inteligência policial + limpeza de corrupção + controle de fronteiras + ressocialização séria + ocupação social, ele não está inventando a roda. Está aplicando o que funciona no mundo.
E o Brasil, ao continuar com 45.747 homicídios por ano e população vivendo com medo, está escolhendo falhar.
Mas essa escolha pode ser revertida.
Segurança pública é questão técnica, política, moral e civilizacional.
E o momento de agir é agora.
Este artigo integra o projeto editorial do Movimento Brasil que nos Une, fundamentado nas diretrizes de segurança pública propostas por Mário Oliveira Filho.
Violência como Entropia: Do Leviatã de Hobbes ao Estado que Protege ou Abandona
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