“Sócrates: Então, Protágoras, se te parece, voltemos ao princípio de nossa investigação: o que é, precisamente, aquilo que torna um homem virtuoso?”
Protágoras: A educação, Sócrates. Sempre foi a educação.
— Platão, Protágoras, 320c
No diálogo platônico Protágoras, Sócrates e o sofista Protágoras debatem a natureza da virtude. Pode ser ensinada? Nasce-se com ela? É dom dos deuses ou conquista humana?
A resposta de Protágoras — e que atravessou 2.500 anos sem ser refutada — é cristalina: virtude se ensina. E quem não a ensina condena gerações à mediocridade, ao vício, à servidão.
Os gregos antigos chamavam esse processo de paideia (παιδεία): a formação integral do cidadão — corpo, mente, caráter. Não era apenas “ir à escola”. Era esculpir alma, moldar pensamento, preparar o jovem para ser livre e útil à polis.
Werner Jaeger, no monumental Paideia: A Formação do Homem Grego (1933), escreveu:
“A educação não é propriedade individual, mas pertence por essência à comunidade. O caráter da comunidade se imprime em cada um de seus membros e é a fonte de toda a cultura.”
Transpondo para 2026: um país que falha em educar não falha apenas pedagogicamente — falha civilizacionalmente.
E o Brasil, hoje, falha.
O PISA (Programme for International Student Assessment), conduzido pela OCDE, avalia estudantes de 15 anos em leitura, matemática e ciências. É o termômetro global da educação.
Os resultados do Brasil em 2022 (mais recentes disponíveis) são devastadores:
| Área | Pontuação Brasil | Média OCDE | Diferença | Posição Global |
|---|---|---|---|---|
| Matemática | 379 | 472 | -93 pontos | 65º entre 81 países |
| Leitura | 410 | 476 | -66 pontos | 52º entre 81 países |
| Ciências | 403 | 485 | -82 pontos | 61º entre 81 países |
Fonte: OCDE / Inep, PISA 2022
O que esses números significam:
Não são percentuais pequenos. São milhões de jovens que passaram anos na escola e saíram sem ferramentas mínimas para entender o mundo, resolver problemas, tomar decisões informadas.
Se o PISA mede o fim do processo (15 anos), o Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica) mede o começo. E revela que o problema já nasce na base.
Tabela 2: Taxa de Alfabetização aos 7 Anos no Brasil (Saeb 2023)
Município/Estado | Taxa de Alfabetização | Observações |
Fortaleza (CE) | 74,8% | Melhor capital do país |
Sobral (CE) | 94,3% | Melhor município brasileiro |
Média Brasil | 59,2% | Mais de 40% das crianças saem do 2º ano sem ler |
São Paulo (capital) | 48,25% | Estado mais rico, capital em 17º lugar nacional |
Salvador (BA) | 36,8% | Mais de 60% das crianças não sabem ler |
Fonte: Inep / MEC, Saeb 2023 e Compromisso Nacional Criança Alfabetizada
Isso significa que:
Uma em cada duas crianças brasileiras chega aos 8 anos sem saber ler e escrever
Há um nome para isso: crime social. E não estou sendo melodramático — estou sendo preciso.
“Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo.”
— Paulo Freire, Pedagogia do Oprimido (1968)
A frase é bonita. Mas foi mal interpretada por décadas de gestores educacionais que a transformaram em: ‘não podemos reprovar, isso traumatiza’.
O resultado? Aprovação automática sem aprendizagem.
Crianças passam de ano sem dominar o básico. Chegam ao 5º ano sem ler fluentemente. Ao 9º ano sem saber regra de três. Ao ensino médio sem entender porcentagem. E aí, o sistema se espanta quando elas não passam no ENEM, não conseguem emprego, não têm mobilidade social.
“A educação moderna, sob o pretexto de respeitar a criança, abandonou-a à sua própria sorte, privando-a da autoridade necessária para guiá-la ao mundo adulto.”
— Hannah Arendt, A Crise na Educação (1958)
Traduzindo: aprovar sem ensinar não é generosidade. É abandono.
Em A República, Platão dedica três livros inteiros (VI, VII e X) à educação. Para ele, a qualidade de uma cidade se mede pela qualidade de sua educação.
O mito da caverna (Livro VII) é, essencialmente, uma metáfora educacional:
Platão não estava falando de currículo ou método. Estava falando de libertação ontológica. Educar é tirar alguém da escuridão da ignorância e colocá-lo na luz do conhecimento.
Transpondo para 2026:
O Estado que aceita 40% de crianças não alfabetizadas é Estado que faliu em sua missão fundante
Aristóteles, na Política (Livro VIII), é ainda mais direto:
“Ninguém discordará de que o legislador deve se ocupar especialmente da educação dos jovens. Nas cidades onde isso não acontece, o regime político é prejudicado.”
— Aristóteles, Política, Livro VIII
E mais adiante: ‘O cidadão deve ser moldado para se adequar à forma de governo sob a qual vive. Pois cada governo tem um caráter peculiar que originalmente o formou e que geralmente o preserva.’
O que isso significa:
Se você quer uma democracia funcional, precisa de cidadãos educados. Sem educação, a democracia vira:
O Brasil de 2026, com 40% de crianças não alfabetizadas e 73% de jovens sem matemática básica, está criando as condições perfeitas para qualquer uma dessas degenerações.
Cícero, no De Oratore, argumenta que educação não é só técnica — é formação de caráter, cultivo de virtudes, construção de humanidade (humanitas).
“Sem educação, um homem é um animal. Com educação, é capaz de contemplar os céus e entender os deuses.”
— Cícero, De Oratore
Menos religiosamente, mais secularmente: educação transforma potencial bruto em capacidade realizada.
Uma criança que não aprende a ler não perde apenas uma habilidade técnica. Perde:
Pitágoras e sua escola acreditavam que ‘tudo é número’ (arithmós). Não era misticismo — era a intuição de que a realidade tem estrutura matemática, e quem entende essa estrutura domina o mundo.
Platão, profundamente influenciado pelos pitagóricos, inscreveu na entrada da Academia:
“Que não entre aqui quem não souber geometria.”
— Inscrição na Academia de Platão
Por quê? Porque matemática ensina raciocínio lógico, abstração, prova rigorosa — ferramentas essenciais para filosofia e, por extensão, para qualquer pensamento sério.
Quando 73% dos estudantes brasileiros não sabem matemática básica, o país perde:
Economias avançadas são economias matematicamente proficientes. E o Brasil está ficando para trás.
Um jovem que não entende porcentagem:
Sem matemática, a pessoa fica vulnerável a golpes, endividamento crônico e pobreza perpétua.
Singapura, país sem recursos naturais, tornou-se potência econômica em parte por uma decisão estratégica: educação matemática de excelência para todos.
Tabela 3: Singapura vs. Brasil no PISA 2022 – Matemática
Indicador | Singapura | Brasil | Diferença |
Pontuação média | 575 | 379 | +196 pontos |
% no nível básico ou acima | 99% | 27% | +72 p.p. |
% no nível avançado | 41% | 1% | +40 p.p. |
Posição global | 1º lugar | 65º lugar | — |
Fonte: OCDE, PISA 2022
Como Singapura chegou lá:
Lição para o Brasil: não é “milagre asiático”. É escolha política, investimento sério e cobrança por resultados.
Sobral, município do interior do Ceará com 210 mil habitantes, era, nos anos 1990, um dos piores em educação no estado. Analfabetismo infantil crônico, evasão escolar alta, professores desmotivados.
Em 2001, uma nova gestão municipal decidiu que alfabetizar toda criança aos 7 anos seria meta inegociável.
“100% das crianças alfabetizadas até o final do 2º ano do fundamental.”
Não era ‘melhorar’, ‘tentar’, ‘fazer o possível’. Era meta numérica, pública, cobrável.
Criaram o SPAECE-Alfa (Sistema Permanente de Avaliação da Educação Básica do Ceará), que testa todas as crianças ao final do 2º ano.
Transparência radical: resultados publicados por escola, sem maquiagem.
Adotaram o método fônico (associação de sons e letras) combinado com outras abordagens baseadas em evidências.
Professores alfabetizadores receberam:
Tabela 4: Evolução de Sobral no IDEB (Anos Iniciais)
Ano | IDEB Sobral | IDEB Brasil | Diferença |
2005 | 4,0 | 3,8 | +0,2 |
2011 | 6,6 | 5,0 | +1,6 |
2017 | 9,1 | 5,8 | +3,3 |
2021 | 9,1 | 5,8 | +3,3 |
Meta 2022 | 9,5 | 6,0 | +3,5 |
Fonte: Inep / MEC
Em 2023, Sobral atingiu 94,3% de alfabetização aos 7 anos — a melhor marca do Brasil, equivalente a países desenvolvidos.
Aristóteles, na Ética a Nicômaco, ensina que virtude não é sentimento, é hábito.
“Tornamo-nos justos praticando atos justos, moderados praticando atos moderados, corajosos praticando atos corajosos.”
— Aristóteles, Ética a Nicômaco
Sobral não virou referência porque teve ‘boa intenção’. Virou porque criou hábitos institucionais: avaliar, diagnosticar, intervir, corrigir, repetir.
Isso é o que transforma discurso em resultado.
Platão disse que a qualidade de uma cidade se mede pela qualidade de sua educação.
Aristóteles disse que sem educação, a democracia se degenera.
Cícero disse que educação é o que separa humanidade de barbárie.
Os estoicos disseram que virtude é hábito, e hábito se ensina.
Rousseau disse que educação pode restaurar o que foi corrompido.
Rawls disse que justiça exige igualdade de oportunidades desde o início.
Sen disse que liberdade é capacidade, e capacidade se adquire por educação.
Todos eles estavam certos. E o Brasil, ao falhar em alfabetizar 40% de suas crianças, está falhando em tudo.
Quando Mário Oliveira Filho propõe, em suas diretrizes, meta de 100% de alfabetização aos 7 anos e transparência total de resultados, ele não está fazendo política partidária.
Ele está resgatando o princípio civilizatório que os gregos formularam há 2.500 anos: educar é dever sagrado do Estado.
E isso, longe de ser discurso, é o único caminho para o Brasil deixar de ser condenação e virar promessa.
Este artigo integra o projeto editorial do Movimento Brasil que nos Une, fundamentado nas diretrizes de modernização da educação propostas por Mário Oliveira Filho.
Educação como Destino: Da Paideia Grega à Escola que Liberta ou Aprisiona Preâmbulo:
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